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Na evolução histórico-social do homem, o processo de humanização, como explica Simondon (1969), começou a partir do momento em que o homem utilizou os recursos existentes na natureza em benefício próprio, criando ferramentas conforme suas necessidades de alimentação e de segurança, diferenciando-se assim dos demais animais. Para Kenski (2007, p.15) “As tecnologias são tão antigas quanto a espécie humana e foi a engenhosidade humana em todos os tempos que deu origem às mais diferentes tecnologias”. Sob essa perspectiva a humanidade presenciou o surgimento de vários tipos de tecnologias, da idade da pedra até a chegada do momento atual.

Torna-se necessário mencionar o significado de tecnologia, pois de acordo com Lemos (2004) há uma confusão de conceituação dos termos tecnologia e técnica, por isso é importante indicar a diferença entre os termos. O autor explica que hoje se compreende por tecnologia “os objetos técnicos, as máquinas e seus respectivos processos de fabricação” e, por técnica “a dança, a economia, as atividades esportivas ou mesmo objetos, instrumentos e máquinas” (LEMOS, 2004, p. 26).

Segundo o dicionário Priberam da Língua Portuguesa29 tecnologia “é a ciência

cujo objeto é a aplicação do conhecimento técnico e científico para fins industriais e comerciais”, “conjunto dos termos técnicos de uma arte ou de uma ciência”.

Para compreendermos as diferenças entre tecnologia e técnica, iniciamos com o significado da palavra técnica, a partir da sua acepção original e etimológica.

Técnica vem do grego tekhnè, que significa arte. A tekhnè compreende as atividades práticas, desde a elaboração de leis e a habilidade para contar e medir, passando pela arte do artesão, do médico ou da confecção do pão, até as artes plásticas ou belas artes, estas últimas consideradas a mais alta expressão da tecnicidade humana (LEMOS, 2004, p. 26).

Na perspectiva filosófica, o termo tekhnè refere-se:

[...] as artes práticas, o saber fazer humano em oposição a outro conceito chave, a phusis, ou o principio de geração das coisas naturais. Tekhnè e phusis fazem parte de todo processo de vir a ser, de passagem da ausência à presença, ou daquilo que os gregos chamavam de poiésis (LEMOS, 2004, p. 26).

Silva (2012) coloca que embora o ser humano seja um fazedor de métodos e ferramentas, ele é mais do que homo faber. Segundo Kingle (2000, citado por SILVA, 2012) para a evolução adequada de nossas sociedades, o ser humano necessita integrar, no seu desenvolvimento, três dimensões: a) Theoria relativa ao conhecer; b) Práxis, referente ao agir; c) Póiesis, mencionada ao fazer.

No caso da tecnologia ela tem a ver com a poiésis, que é a dimensão do fazer, correspondendo à atividade produtiva. Se a tecnologia é a expressão da atividade humana referida a métodos e artefatos, ela faz parte da cultura e da maneira de viver do ser humano, porém não é a única dimensão dele, nem a mais fundamental. A cultura tem origem no termo colere, que significa cultivar. Isso quer dizer que se cultiva tanto a natureza humana, com vistas ao desenvolvimento pessoal e dela própria, quanto à natureza externa, em que se situa a atividade produtiva, a qual gera a tecnologia.

Com o desenvolvimento das tecnologias o ser humano passou a cultivar novos hábitos e maneiras, o que resultou na alteração do comportamento e consequentemente no surgimento de outras tecnologias. Para Kenski (2012) tudo o que utilizamos em nossa vida diária, pessoal e profissional, como próteses, medicamentos, óculos, alimentos industrializados, sabonetes, talheres, livros, giz,

apagador, papel, caneta, lápis, computador, celular, smartphone, tablet, notebook etc, são formas diferenciadas de ferramentas tecnológicas e as técnicas correspondem aos usos que lhes destinamos em cada época.

Nos séculos XX e XXI passamos a ter as TDIC, que dizem respeito ao conjunto de recursos tecnológicos – hardware e software, que proporciona às pessoas captar, transmitir e distribuir informações em diferentes formatos (imagem, som, texto, vídeo). Assim, são TDIC: computador pessoal, notebook, tablets, DVD e internet, como também recursos digitais como software, site, ferramentas, objetos de aprendizagem, e-mail etc. (ABREU, 2011).

Nessa perspectiva, torna-se necessário esclarecer que as TDIC são mais do que ferramentas tecnológicas, elas “englobam a totalidade de coisas que a engenhosidade do cérebro humano conseguiu criar em todas as épocas, suas formas de uso, suas aplicações” (KENSKI, 2007, p. 22). Desse modo, a linguagem é considerada TDIC, pois acompanha o desenvolvimento tecnológico, sendo construída socialmente e que reflete a cultura de uma determinada sociedade.

A linguagem é uma construção criada pela inteligência humana para possibilitar a comunicação entre os membros de determinado grupo social. Estruturada pelo uso, por inúmeras gerações e transformada pelas múltiplas interações entre grupos diferentes, a linguagem deu origem aos diferentes idiomas existentes e que são característicos da identidade de um determinado povo, de uma cultura (KENSKI, 2007, p. 23).

Portanto, ao utilizar as TDIC, o ser humano deu origem a uma nova cultura na sociedade contemporânea, a cultura digital, pois:

[...] as novas tecnologias de informação e comunicação, caracterizadas como midiáticas, são, portanto, mais do que simples suportes. Elas interferem em nosso modo de pensar, sentir, agir, de nos relacionarmos socialmente e adquirirmos conhecimentos. Criam uma nova cultura e um novo modelo de sociedade (KENSKI, 2007, p. 23).

Nesse sentido, educar na conjuntura contemporânea da cultura digital supõe ensinar e aprender a participar eficazmente nas práticas sociais e culturais mediadas de uma ou de outra maneira pelas TDIC.

Nesse contexto, faz-se necessário aprofundar a reflexão sobre tecnologia. O artigo Tecnologia e epistemologia: a influência da tecnologia na percepção da realidade, Silva G. (2012) enfatiza que o tecnocentrismo é uma mentalidade característica da modernidade, que estabelece centralidade para a racionalidade tecnológica.

Nessa direção, trazemos os quatros conceitos de tecnologia de Vieira Pinto (2005): tecnologia como logos30 da técnica; tecnologia como sinônimo de técnica;

tecnologia no sentido de conjunto de todas as técnicas de que dispõe determinada sociedade; tecnologia como ideologização da técnica.

O primeiro significado é de tecnologia como logos da técnica que se reporta à ciência cujo objeto seria a técnica e com o nome de tecnologia. A tecnologia é a reflexão dos modos de produzir e o ato de produzir é, portanto, a técnica representada pelo homem pela sua ação. As produções materiais, os artefatos, são a corporificação da técnica (PINTO, 2005, p. 220).

O segundo conceito, tecnologia como sinônimo de técnica, é o sentido mais frequente e popular da palavra. Pinto (2005, p. 221) acrescenta que o termo tecnologia costuma ser confundido com o termo técnica no sentido de know-how (saber-como) uma variante americana. A tecnologia no sentido de conjunto de todas as técnicas se refere a todas as técnicas de que dispõe uma determinada sociedade em dada época histórica. Para o autor, esse conceito contém duas possibilidades de interpretação: a) posse dos instrumentos lógicos e materiais indispensáveis para chegar à nova realização; b) exigência desta por parte da sociedade (PINTO, 2005, p. 284).

O conceito tecnologia como ideologização da técnica envolve atitude de ingenuidade, de espanto, de grande admiração provocado pelas classes dominantes para enganar as classes oprimidas, a qual supostamente o ser humano, por meio da tecnologia, irá construir uma vida feliz para todos. É a atitude da dicotomização humanismo x tecnologia na qual o ser humano, na ideologização da tecnologia, não vê o aparelho na sua real condição de instrumento que deve ser compreendido no seu papel de transformação da realidade. Assim, o ser humano na ideologização, em vez de fazer da máquina um instrumento de transformação, a vê como instrumento de adoração. Na atitude da personificação da técnica, a técnica não é boa nem é má, os homens que o são. Nesse sentido a técnica é eticamente neutra (PINTO, 2005, p. 167).

30 Termo grego que significa, entre outras coisas, "razão", "argumento", "discurso". O termo foi

introduzido na filosofia por Heráclito (cerca de 535-475 a. C.), para referir a ordem racional subjacente a toda a mudança. Disponível em: <http://www.defnarede.com/l.html>. Acesso em 11 de nov. 2014.

Assim, como coloca Vieira Pinto (2005), é fundamental saber até que ponto as técnicas, quando se inserem na educação, dialogam com os princípios pedagógicos ou são simplesmente inseridas de forma acrítica e sem critérios.

Segundo Silva G. (2012) a absolutização do paradigma tecnológico culmina por outorgar à tecnologia um lugar proeminente na vida do ser humano, situando-a como a panaceia para todos os problemas da humanidade. Essa ênfase demasiada na tecnologia desvirtua uma aproximação equilibrada da realidade. A posição tecnocêntrica deixa de lado questões como O que é? para analisar as do tipo O que fazer? e Como fazê-lo?

Neste aspecto, a relação das TDIC com a educação deve ser, primeiramente, de compreender o que é tecnologia e qual o seu papel na educação, para posteriormente ensinar as melhores possibilidades do que fazer e como fazer com elas. E ainda, fazer perceber de que as TDIC são grandes potenciais a serem utilizadas no ensino, mas que o foco seja a aprendizagem do sujeito crítico, e não a aprendizagem do objeto em si.

A discussão da tecnologia na educação é feita também por Freire e Torres (1991) ao refletir que “Penso que a educação não é redutível à técnica, mas não se faz educação sem ela” (FREIRE; TORRES, 1991, p. 98). Para ele a técnica e a tecnologia são fundamentais para a educação, pois ela sempre esteve vinculada a certas técnicas e tecnologias. Mas, também como um crítico à tecnologia, no sentido de gerar sociedades consumistas, uma vez que está a serviço da produção capitalista:

[...] para mim, a questão que se coloca é: a serviço de quem as máquinas e a tecnologia avançada estão? O problema é saber a serviço de quem eles (os computadores) entram na escola. Será que vai se continuar dizendo aos educandos que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil? Que a revolução de 64 salvou o país? Salvou de que, contra que, contra quem? Estas coisas é que acho que são fundamentais (FREIRE, 1984, p. 1).

A razão de ser da tecnologia, para Freire, é a de servir aos interesses dos oprimidos como instrumento de transformação da realidade. “O progresso científico e tecnológico que não responde fundamentalmente aos interesses humanos, às necessidades de nossa existência, perdem para mim, sua significação” (FREIRE, 1996, p. 147).

O lado otimista e reconhecedor das potencialidades e das mudanças que a tecnologia oferece está presente nos escritos de Freire:

[...] Ao recordar agora todo este trabalho tão artesanal, até com saudade, reconheço o que teria poupado de tempo e de energia e crescido em eficácia se tivesse contado, na oportunidade, com um computador, mesmo humilde como o de que dispomos hoje minha mulher e eu (FREIRE, 1992, p. 59).

Seguindo a relação das TDIC com a educação, apontamos o reflexo da evolução das TDIC que incide no processo de globalização, pois:

[...] provoca mudanças modos de ser e estar no mundo, reconfiguram as relações comunicacionais e faz surgir uma nova ordem social, denominada de sociedade tecnológica, sociedade em rede, sociedade da informação, sociedade do conhecimento, sociedade cognitiva, sociedade digital ou outras denominações (ALMEIDA, M; VALENTE 2011, p. 06).

Desse modo, com a evolução das TDIC surgiram novas denominações de sociedade, além disso, transformações na nossa vida pessoal e profissional. Ainda nesse sentido Almeida, M. e Valente (2011) explicam que a compreensão das tecnologias na educação está ligada:

Como o homem se percebe historicamente construído e inserido na relatividade espaço temporal de um presente fugaz, que incorpora passado e futuro em sua instantaneidade e simultaneidade de fatos, presente este que tem nas tecnologias elementos constitutivos e estruturantes do modo de ser, pensar e estar no mundo (ALMEIDA, M.; VALENTE, 2011, p. 07). Na educação, especialmente o currículo, o tema integração das TDIC ao currículo está presente nos debates e nas pesquisas, nesse sentido Coll e Illera (2010, p.307) enfatizam que:

A escola precisa pensar na integração das tecnologias da informação e comunicação no âmbito do currículo, pois, a partir do referencial proporcionado pelas práticas sociais e culturais próprias da sociedade da informação, da leitura ética e ideológica que se faça delas e das necessidades formativas das pessoas neste novo cenário, torna-se necessária a revisão do conjunto do currículo escolar. (COLL; ILLERA, 2010, p. 307)

Nesta perspectiva, embora as TDIC estejam difundidas ainda são tratadas de maneira desconectada do currículo, segundo Almeida M. e Valente (2011). Assim, entendemos que as TDIC devam articular-se com o currículo, serem incorporadas ao currículo, estejam a serviço dos projetos de trabalho dos educadores e educandos, contribuam para o processo de ensino e de aprendizagem.

No próximo item apresentamos o cenário sobre o acesso aos computadores e internet, como também o panorama do uso das tecnologias digitais da informação e comunicação pelos professores e alunos.